Atrizes morreram em um intervalo inferior a 24 horas e deixam um legado construído ao longo de décadas no rádio, no teatro, no cinema e, principalmente, na teledramaturgia brasileira

A televisão brasileira perdeu duas de suas maiores referências em um intervalo de menos de 24 horas. Laura Cardoso morreu na noite de segunda-feira (17), aos 98 anos, em São Paulo. No dia seguinte, terça-feira (18), foi confirmada a morte de Glória Menezes, aos 91 anos, em sua residência, no Rio de Janeiro.

Laura morreu de causas naturais, em casa, no bairro do Sumaré, na Zona Oeste da capital paulista. A informação foi divulgada pela família nas redes sociais da atriz. Segundo familiares, ela passou mal por volta das 23h20. A cerimônia de despedida reuniu parentes, amigos e representantes do meio artístico em São Paulo.

Glória Menezes também morreu de causas naturais. Em comunicado, a família informou que a atriz estava em casa e agradeceu as manifestações de carinho e o respeito ao momento de luto. A artista estava acompanhada do filho, o ator Tarcísio Filho.

As duas mortes, ocorridas em sequência, provocaram comoção entre artistas, profissionais da televisão e espectadores que acompanharam suas personagens durante várias gerações. Mais do que protagonistas de novelas, Glória e Laura participaram diretamente da construção da dramaturgia brasileira.

Glória Menezes: pioneirismo e protagonismo

Nascida Nilcedes Soares de Magalhães, em Pelotas, no Rio Grande do Sul, Glória Menezes iniciou sua trajetória profissional no teatro e na televisão durante um período em que as produções ainda eram realizadas ao vivo.

Em 1963, protagonizou, ao lado de Tarcísio Meira, “2-5499 Ocupado”, considerada a primeira telenovela diária da televisão brasileira. O trabalho ajudou a consolidar uma linguagem que posteriormente transformaria as novelas em um dos produtos culturais mais importantes do país.

Glória estreou na TV Globo em 1967, na novela “Sangue e Areia”. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, participou de produções como “Irmãos Coragem”, “Jogo da Vida”, “Guerra dos Sexos”, “Rainha da Sucata”, “Torre de Babel”, “A Favorita” e “Totalmente Demais”.

Em “Rainha da Sucata”, de 1990, deu vida à sofisticada e atormentada Laurinha Figueroa, uma das vilãs mais lembradas da história das novelas. A personagem demonstrou a versatilidade da atriz para transitar entre o drama, a ironia e o humor.

Glória também participou do filme “O Pagador de Promessas”, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1962. Sua trajetória ultrapassou, portanto, os limites da televisão e alcançou reconhecimento no teatro e no cinema.

Na vida pessoal, formou com Tarcísio Meira um dos casais mais admirados do meio artístico brasileiro. Os dois permaneceram juntos por quase seis décadas, até a morte do ator, em agosto de 2021, em decorrência de complicações da Covid-19.

Laura Cardoso: mais de oito décadas dedicadas à arte

Laura Cardoso, nome artístico de Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni, nasceu em São Paulo, em 13 de setembro de 1927. Sua carreira começou no rádio, ainda na década de 1940, antes da chegada da televisão ao Brasil.

A atriz esteve entre as pioneiras da TV brasileira, participando de teleteatros e produções transmitidas ao vivo. Ao longo de mais de 80 anos de atividade profissional, interpretou mulheres fortes, mães, avós, trabalhadoras, figuras populares e personagens marcadas pelos conflitos familiares e sociais.

Na televisão, participou de novelas como “Mulheres de Areia”, “A Viagem”, “Rainha da Sucata”, “Chocolate com Pimenta”, “Senhora do Destino”, “Caminho das Índias”, “Gabriela”, “Império”, “Sol Nascente” e “O Outro Lado do Paraíso”.

Laura transformava personagens secundárias em figuras essenciais para as histórias. Sua interpretação, marcada pela intensidade e pela naturalidade, fez com que permanecesse próxima do público mesmo quando não ocupava o centro das tramas.

Caminhos que se encontraram diante das câmeras

As trajetórias de Glória Menezes e Laura Cardoso também se cruzaram profissionalmente. As duas participaram do teleteatro “Um Lugar ao Sol”, exibido pela TV Tupi em 1959, ainda nos primeiros anos da televisão brasileira.

Décadas depois, voltaram a dividir o elenco de “Rainha da Sucata”, em 1990. Na novela, Glória interpretou Laurinha Figueroa, enquanto Laura viveu Yolanda Maia.

A coincidência das mortes, separadas por apenas um dia, reforçou a dimensão histórica da perda. Juntas, as duas representavam uma geração que acompanhou a transformação da televisão: das transmissões ao vivo e em preto e branco às grandes produções nacionais exportadas para diferentes países.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decretou luto oficial de três dias em homenagem às atrizes. A decisão reconheceu a contribuição de ambas para a cultura e para a memória artística do país. A medida consta nos registros oficiais do Portal da Legislação do Governo Federal.

Um legado que continuará nas telas

A morte de Glória Menezes e Laura Cardoso não representa apenas a despedida de duas artistas. Marca o encerramento de parte importante da história da televisão brasileira.

Elas ajudaram a criar uma relação afetiva entre o público e as novelas, levando para as telas histórias de amor, conflitos familiares, desigualdades, sonhos e transformações sociais. Seus rostos e vozes passaram a fazer parte da memória de milhões de brasileiros.

Glória deixa a imagem da protagonista elegante, versátil e pioneira. Laura permanece como símbolo de resistência, longevidade e entrega ao ofício de interpretar.

As artistas partiram, mas suas personagens continuarão vivas cada vez que uma novela for reprisada, uma cena for compartilhada ou uma nova geração procurar compreender como a televisão brasileira construiu sua identidade.